| Da
janela, espreito
Vejo as imagens passarem
Uma imagem fixa: a janela incendiada.
Mais adiante, a água corre como a vida,
como a seiva
que corre em ti e a tinta que escorre para o
poema!
Para lá do parapeito, o fogo. Para cá
do miradouro, o jogo.
Oiço a poesia da água que acaricia
as rochas e leio o que o mar escreve na areia
lisa da praia. Do lado de cá, sinto o
som e a poesia brotarem do teu corpo, enquanto
o odor da madrugada se espalha até à
linha do horizonte e o movimento do mar rola
mansamente pelo teu corpo.
Sinto-me hipnotizado com o vai e vem das imagens.
Do rapto, ao jogo de xadrez, da viagem do comboio
à correria louca pela cidade.
Escalo o monte da cordilheira do desejo.
Pausa.
Uma imagem fixa, então pura e louca,
agora emoldurada.
Estaco na parte antiga da cidade, atrás
do castelo, donde se avista uma roseta da igreja.
Enquanto isso, a janela se ilumina e se descobre.
No interior tudo se incendeia: um beijo abraça
a praça, onde os corpos se entrelaçam.
A janela incendeia-se e descobre os corpos que
se cobrem com o manto quente e fino da pele.
A seiva escorre desenhando um fio de ternura
onde os pássaros da madrugada poisam
no horizonte que se aproxima de nós.
Os corpos vão ficando mais longe do horizonte
do desejo. Há que apanhar de imediato
um barco que nos embale, que nos leve, que nos
traga.
ELE
Diz-me
Agora
que apaguei a vela
Acabei com a música
E vim morar para aqui
Como
é possível que estejas cá
ELA
Foi
a saudade
Que repentinamente me invadiu
E trouxe o tempo
Que jamais vivi contigo
ELE
Com
os lábios ainda quentes
E quando o corpo ainda estremecia
Veio o adeus da rua acima
ELA
É
como
Beber a água do rio
Que não corre
O nosso desencontro
ELE
Encontrámo-nos
Uma vez
Em tua casa
Quando acabei o liceu
ELA
Sempre
gostei
Que entrasses na minha casa
Sem bater à porta
Surpreendias-me
Desarmavas-me
ELE
E
aparecias nua
Sem maquilhagem
Na pele e corpo de mulher
ELA
Ficaste
parado momentaneamente
Quando te convidei para entrar
Depois
fomos para o sótão
ELE
Abrimos
o baú das incertezas
De súbito
Olhei para o espelho
Trazia a imagem
Dos nossos corpos nus
ELA
Despi-me
devagar
Não tinha pressa
E no entanto estava tão apressada!
Devagar fiz como quem desfaz
Um botão
Outro
Outro
Nem sequer havia botões
Inventei-os
Despi-me devagar
Uma peça
Outra
Outra
Nem sequer havia roupa
Inventei-a
Mas despi-me tão devagar
Que senti o tempo
E o meu corpo de volta
Despi-me tão devagar
ELE
E
brincámos
Com os nossos novos brinquedos
ELA
Deixamo-nos
envolver
Por laços bêbados
De ternura
ELE
Dançámos
ao som
Da melodia que inventámos
Com irreais movimentos
Que fantasmas perseguiam
ELA
Eu
estranho era
O calor do Inverno
A alquimia
ELE
As
palavras
Estavam a mais
ELA
Só
queria que me abraçasses
E continuasses ali sem me dizer nada
ELE
Queria
dar vida ao teu corpo
E reganhá-la no meu
ELA
De
início descobri o prazer do prazer
Depois juntou-se-lhe a dor
Pelo desespero de sentir a tua pele
Também em mim
ELE
Quase
te sinto agora a senti-la
ELA
Dava
laços com as minhas pernas
Para prender o teu desejo
ELE
E
no ar
O cheiro a corpos
Que se possuíram
De amor fétido
ELA
Até
que o último minuto o não fosse
Queria o meu corpo de volta
Mas desapareceu
ELE
Fomos
ter
A essa praia deserta e longínqua
Onde os nossos corpos
Sujos de areia
Tornavam-se cúmplices
Do barulho do mar
ELA
Quase
que nos afogamos
Nos monossílabos apressados
Que tentámos dizer
ELE
Nesse
dia
ELA
Tinha
a minha pele em flor
E tu
enevoavas-me os pensamentos
Embriagando-me
A ânsia de viver
A tarde quente
Dessa última manhã
ELE
Em
que apenas ficou
A esperança
Nessa quinta-feira ausente
ELA
Quando
as nossas mãos se uniram
Um gesto brusco as separou
ELE
Uma
espada no meio de nós
ELA
Com
a última réstia de espontaneidade
Que não mataste em mim
Agarrei-te de novo
ELE
Por
entre olhares acusadores
Que nos espreitavam
ELA
Por
fim acariciamo-nos timidamente
Suave
percurso para o desencontro
Que percorri
Tão devagar
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