Luís Aguilar
Professor da Universidade de Montreal (Canadá) e Docente do Instituto Camões

Colecção
POESIA

AGUILAR, Luís.
Ritual só para Fantasmas
: Montreal: Aguilar Edições e Formação, 1998, 2a edição,
150 páginas.
Preço: 15.00 Euros

Encomendar:

vitaliarodrigues@hotmail.com

 


Ritual só para Fantasmas

É na nossa alma que existe a identidade
Fernando Pessoa

Da janela, espreito
Vejo as imagens passarem
Uma imagem fixa: a janela incendiada.

Mais adiante, a água corre como a vida, como a seiva
que corre em ti e a tinta que escorre para o poema!
Para lá do parapeito, o fogo. Para cá do miradouro, o jogo.
Oiço a poesia da água que acaricia as rochas e leio o que o mar escreve na areia lisa da praia. Do lado de cá, sinto o som e a poesia brotarem do teu corpo, enquanto o odor da madrugada se espalha até à linha do horizonte e o movimento do mar rola mansamente pelo teu corpo.
Sinto-me hipnotizado com o vai e vem das imagens.
Do rapto, ao jogo de xadrez, da viagem do comboio à correria louca pela cidade.
Escalo o monte da cordilheira do desejo.
Pausa.
Uma imagem fixa, então pura e louca, agora emoldurada.
Estaco na parte antiga da cidade, atrás do castelo, donde se avista uma roseta da igreja.
Enquanto isso, a janela se ilumina e se descobre. No interior tudo se incendeia: um beijo abraça a praça, onde os corpos se entrelaçam.
A janela incendeia-se e descobre os corpos que se cobrem com o manto quente e fino da pele. A seiva escorre desenhando um fio de ternura onde os pássaros da madrugada poisam no horizonte que se aproxima de nós. Os corpos vão ficando mais longe do horizonte do desejo. Há que apanhar de imediato um barco que nos embale, que nos leve, que nos traga.

ELE

Diz-me Agora
que apaguei a vela

Acabei com a música

E vim morar para aqui
Como é possível que estejas cá

ELA

Foi a saudade
Que repentinamente me invadiu
E trouxe o tempo
Que jamais vivi contigo

ELE

Com os lábios ainda quentes
E quando o corpo ainda estremecia
Veio o adeus da rua acima

ELA

É como
Beber a água do rio
Que não corre
O nosso desencontro

ELE

Encontrámo-nos
Uma vez
Em tua casa
Quando acabei o liceu

ELA

Sempre gostei
Que entrasses na minha casa
Sem bater à porta
Surpreendias-me
Desarmavas-me

ELE

E aparecias nua
Sem maquilhagem
Na pele e corpo de mulher

ELA

Ficaste parado momentaneamente
Quando te convidei para entrar

Depois fomos para o sótão

ELE

Abrimos o baú das incertezas
De súbito
Olhei para o espelho
Trazia a imagem
Dos nossos corpos nus

ELA

Despi-me devagar
Não tinha pressa
E no entanto estava tão apressada!
Devagar fiz como quem desfaz
Um botão
Outro
Outro
Nem sequer havia botões
Inventei-os
Despi-me devagar
Uma peça
Outra
Outra
Nem sequer havia roupa
Inventei-a
Mas despi-me tão devagar
Que senti o tempo
E o meu corpo de volta
Despi-me tão devagar

ELE

E brincámos
Com os nossos novos brinquedos

ELA

Deixamo-nos envolver
Por laços bêbados
De ternura

ELE

Dançámos ao som
Da melodia que inventámos
Com irreais movimentos
Que fantasmas perseguiam

ELA

Eu estranho era
O calor do Inverno
A alquimia

ELE

As palavras
Estavam a mais

ELA

Só queria que me abraçasses
E continuasses ali sem me dizer nada

ELE

Queria dar vida ao teu corpo
E reganhá-la no meu

ELA

De início descobri o prazer do prazer
Depois juntou-se-lhe a dor
Pelo desespero de sentir a tua pele
Também em mim

ELE

Quase te sinto agora a senti-la

ELA

Dava laços com as minhas pernas
Para prender o teu desejo

ELE

E no ar
O cheiro a corpos
Que se possuíram
De amor fétido

ELA

Até que o último minuto o não fosse
Queria o meu corpo de volta
Mas desapareceu

ELE

Fomos ter
A essa praia deserta e longínqua
Onde os nossos corpos
Sujos de areia
Tornavam-se cúmplices
Do barulho do mar

ELA

Quase que nos afogamos
Nos monossílabos apressados
Que tentámos dizer

ELE

Nesse dia

ELA

Tinha a minha pele em flor
E tu enevoavas-me os pensamentos
Embriagando-me
A ânsia de viver
A tarde quente
Dessa última manhã

 

ELE

Em que apenas ficou
A esperança
Nessa quinta-feira ausente

ELA

Quando as nossas mãos se uniram
Um gesto brusco as separou

ELE

Uma espada no meio de nós

ELA

Com a última réstia de espontaneidade
Que não mataste em mim
Agarrei-te de novo

ELE

Por entre olhares acusadores
Que nos espreitavam

ELA

Por fim acariciamo-nos timidamente
Suave percurso para o desencontro
Que percorri
Tão devagar